Um blog pessoal para compartilhar ideias com amigos e familiares. Todos os posts de autoria exclusiva do autor, e eventuais citações de terceiros com nomes dos respectivos autores e/ou textos destes em destaque. PauloCCSaraceni

MUDEM, OU AS RUAS CERTAMENTE VÃO FAZER ISTO

O dono de uma das maiores empreiteiras do mundo e o ex diretor da Petrobrás denunciaram, e confessando crimes próprios, aos brados :
— A POLÍTICA NO NOSSO PAÍS SEMPRE FOI ALIMENTADA PELA CORRUPÇÃO!
E conclamaram :
— ONDE ESTAVA A IMPRENSA, ONDE ESTAVAM TODOS?
30 anos, pelo menos, o modus operandi da propina , do conchavo para desvios de recursos público, da sangria da Nação, da carne e do suor do povo que produz.
Dinheiro que, desviado, negou leitos para hospitais, que matou gente nas filas do SUS.
Dinheiro que fechou escolas, vagas de trabalho, entregou nossas ruas ao crime e à violência.
Dinheiro que matou crianças de fome, de dengue, de zica, e tantas desgraças que poderiam ter sido eliminadas das nossas vidas.
Dinheiro que abasteceu a vida nababesca de tantos que ainda continuam aí, desfrutando o poder. 
E que não arredam da realização do sonho de todo crápula : que é colher onde nunca plantaram, e furtivamente juntar tesouros com o trabalho alheio. Aquilo que todo ladrão faz..
Ora, então o povo treme ao ouvir o clichê de que  "tudo é uma questão de articulação, negociação, de acordo, do exercício democrático do entendimento".
O povo sente uma repulsa, uma paura que é avessa a estas expressões, porque elas parecem dizer mais do mesmo, ou seja, tudo será como antes.
Mesmo o país tendo vivido, nos últimos anos, um sopro forte e renovador de ventos de esperanças, com a operação Lava Jato, que ainda tenta fazer uma faxina definitiva nesta farra criminosa que contaminou uma boa parte da política. Com instituições que devolveram um pouco da credibilidade à nossa democracia, e que lutam ao lado do povo para mudar as coisas, o povo teme ainda. E não consegue ouvir mais estas expressões sem sobressaltos
Sei que há injustiça na generalização, sei que existem bons políticos com boas práticas e honestidade, sei que pode haver boas intenções nestas expressões, mas não bastam mais ao povo. A política dominante têm que demonstrar serviço ao país.
Não bastam mais promessas e discursos, o povo quer sinergia republicana e ética nas ações.
Que têm sobrado em muitos magistrados de carreira, promotores, procuradores, policiais federais, auditores da receita, e que fizeram surgir personagens admirados, cultivados como símbolos destes novos tempos de esperança.
Não que o povo os queiram como heróis permanentes, mas foram aclamados assim porque com tanta infelicidade o país precisava desta iniciativa. Precisava de gente disposta a enfrentar esta causa de todos, e que tivesse algum poder para fazê-lo.
Não, a nação nunca desejou a intervenção militar, a vocação do nosso povo é claramente democrática, plural, com o indivíduo no centro das decisões, na construção de uma sociedade livre e que premia o mérito e o trabalho. .
Mas desacreditou na democracia caricatural que a nossa política sempre entregou à Nação. 
E desejou a intervenção, como já fez uma vez, como uma saída, uma libertação, uma tentativa de resgate do próprio Estado, da República.

— Senhores, não apenas tentem mudar a maneira de fazer política.

— Mudem, ou as ruas certamente vão fazer isto.

ESTRANHAS EMPATIAS

Que almas são estas que amam as causas distantes, remotas?
Brigam pela pretensa terra indígena, e desprezam a família do agricultor que a tornou produtiva.
Que ali plantou seus filhos e sua vida.
Num país que foi colonizado há dezenas de séculos e que apresentou nos seus primórdios, silvícolas nômades, coletores e que hoje, a quinta geração deseja as cidades, a educação, a saúde e o conforto da tecnologia.

Brigam ainda pelos que querem terra, mesmo não sendo produtores, e apoiam a deflagração das invasões contra quem, há muitas gerações, vive do labor agrícola. E sofrem com a dificuldade de produzir, onde seus avós deixaram suas vidas pela força primitiva de seus braços, para transformar matas em pão. Que  alimentam todos de grãos, riquezas e carnes.

Brigam e choram, e legitimamente, pelas crianças foragidas de outras nações, e se comovem com o périplo de seus pais que arriscam em desafiar as fronteiras para viver melhor. Mas pouco se detém com a crueldade que sofrem às suas vistas, nas ruas de seus mesmos países, onde são maltratadas, onde divagam em morros paupérrimos, sem escola e sem lei.
Mas tiranos são os outros reis, de outros povos, que ousaram oferecer melhor vida de farto consumo aos seus, e só aos seus.

Brigam também e empunham com sangue nos olhos a causa ecológica, juram que há abusos nos meios de produção agrícola, excesso de veneno, de contaminação dos rios e das matas, mesmo que os fatos as desmintam. Mas de suas janelas apreciam os rios mortos de suas cidades, o lixo químico de seu consumo tecnológico, descartado nas ruas, nos ares esfumaçados das suas planícies de concreto, entulhadas de carros e sujeira tóxica de seu predador consumo, e prazer.



TROMBETAS, SÓ AS MÍTICAS DO GRANDE LIVRO

Faça o seu melhor, realize a perfeição da sua aptidão potencial, como filho, como pai, como irmão, como esposo, como amigo e como profissional. Ainda assim não terá feito o suficiente, mas terá realizado o mister de todo homem que é lutar nos limites da própria força. A sua espada é curta, não vai transformar o mundo, mas se unirá a quem tem o mesmo desejo. A outra opção é se quedar, se acovardar, se omitir e apenas apontar os obstáculos, os erros, as montanhas, os problemas e as dificuldades. Esta consciência não é privilégio de nenhuma alma, é a denúncia contra a própria derrota, contra a assumida inércia, incompetência, fraqueza e que se conforta com o exercício da crítica, estéril e improdutiva, ao invés de empregar o próprio braço à luta, à superação.

2019

Quanto o teu olhar for da janela da tua alma para o horizonte da tua rua, e encontrar teus amigos, os próximos e os distantes bem junto do teu coração, e sem medo revelar o teu sorriso, o teu afeto, o teu amor, abraçando tudo e todos, então estarás vivendo o espírito de fim de ano.
Que na verdade é começo.
Qual seja o calendário, a tua alma só resgatará o que semeou na jornada, faltarão coisas, sobrarão perdas, mas terás a plena ação da vida e o saldo que oferece o prêmio ou a lição, que é prêmio também.
Todo salto é uma queda, projetada pelo impulso, toda nota musical é resistência ao vibrato humano, que toca, bate ou sopra. E sente.
As tuas costas carregam a mobília da experiência, o grande currículo de tua vida, então não desprezes os pesos, o alívio pode ser indício de fraqueza.
Considere que em direção à luz tivestes a benção do contraste da escuridão, que te guiou.
Com adversidade se conhece o vitorioso, na luta se conhece a conquista e no ódio se reconhece o amor. Minhas palavras honestas para você, sinceramente.

DA VERGONHA


Eu ouvi há muito tempo do meu pai, que também é Paulo, que homem tem vergonha na cara. E faz tanto tempo que creio que na época era apenas um ruído, pois eu sequer entendia as palavras ainda.

Ouvi, desde então, que vergonha é uma virtude dos que tem consciência moral, dos que se arrependem do erro cometido, dos que fizeram mal, mesmo acidentalmente.
Vergonha é sinal de valor humano, de quem busca o caminho certo, de quem é capaz de enfrentar os próprios erros, dizia meu avô italiano, Angelo.
Oras, vergonha é bom, vergonha é caráter, só sente quem tem, dizia minha mãe que me encorajava depois de me confrontar, e me ver reconhecer, com mãos à procura de bolsos, uma das minhas inúmeras travessuras. 
E aí eu me surpreendi, um dia, questionando o meu primogênito, Paulo. 
— Você não tem vergonha, perdeu a aula?
Ele ruborizado, aflito e com os olhos marejados devolveu, entre um quase choro e um remorso, autêntico e comovente. — Papai, eu perdi a hora, dormi demais, nunca aconteceu comigo.
A minha caçulinha Natália, que ainda mal escrevia as primeiras letras, já me comovia quando abstraída em suas fantasias maternais e com o dedo em riste, questionava sua “filha” da Estrela, que colocada sentada nos pés de sua cama, numa inércia natural, cumpria o seu “castigo”. E ouvia uma precoce "mamãe" se irar: "Que vergonha!"
Então convivo muito com a vergonha, todos nós convivemos, ela está nas nossas vidas, dentro de nós, e nos assalta sem que a chamemos e sem esperarmos.
É bom que seja assim, isto é parte dos que têm uma empatia com o próximo, com o certo, com o justo e buscam se melhorar na jornada da vida.
Aliás, o Boris, aquele do jornal da tv, poderia até dizer assim: “—É uma vergonha, não ter vergonha”. 

O JUIZ MORO MERECE, O PAÍS PRECISA E AGRADECE


O Juiz Sérgio Moro aceitou o Ministério da Justiça, a convite do presidente eleito. Há quem se oponha a isto, uns porque acreditam que seria melhor contar com ele na continuidade da Lava Jato, outros, porque creem que sua participação no atual governo mancha a sua neutralidade. A responsabilidade funcional do Juiz é reconhecida por todos, Procuradores, Policiais Federais, seus colegas e por toda a Nação, e se sua decisão foi no sentido de assumir esta grandiosa missão, com certeza sabe não apenas da relevância do seu trabalho já realizado, mas tem a convicção de sua continuidade em mãos de outros magistrados e agentes públicos, e que sua colaboração para o país pode se dar em nível ainda superior, nesta quadra da história da República. Quanto à sua neutralidade, ela já vem sendo questionada por quem tenta fugir de sua pena — sempre efetiva e exemplar no cumprimento da Lei — naqueles argumentos conhecidos da defesa criminal vazia que, em face da robustez da decisão condenatória e não podendo atacar os fatos, ataca as instituições ou até mesmo a vítima. Criminosos que foram investigados por órgãos independentes como a Polícia Federal, pelo Ministério Público, condenados pela jurisdição federal singular, pelo Tribunal de Segunda Instância (unanimemente), com a condenação reforçada no Tribunal Superior e consolidada pela supervisão do Supremo Tribunal Federal, que as mantiveram incólumes. Ao todo, mais de duas dezenas de Magistrados exerceram a Jurisdição nestas condenações, mas convenientemente a única figura atacada é a do notável Juiz, por suas ações emblemáticas, corajosas e quase de vanguarda no combate da endêmica corrupção que sempre infelicitou nossa República. Que ao final desta nobre missão seja convocado para o desafio mais importante, ocupar uma das eventuais vagas na mais alta Corte de Justiça do país, o Supremo Tribunal Federal. Ninguém teria merecido mais que ele. 

EU VIVI, NÃO ME CONTARAM

Generalização não explica nada, é conceito raso. Sei que nem todo político é corrupto, mas cabe ao sistema ter defesas e ter vigor contra a corrupção. Também sei que o militar, identificado com o uso da força, não é sinônimo de violência, aliás a maioria que conheço, vocacionados nos serviços de defesa e policial, realizam um trabalho com mais patriotismo, espirito comunitário e justiça do que muitos civis. 
A intervenção militar de 1964 criou alguns estereótipos, um deles é que todo militar torturava e outro é que a guerrilha e toda a esquerda queriam a democratização. Nenhum, nem outro, os militares intervieram porque a falência da política em lidar com a Nação fez o povo conclamar esta saída. 
O Brasil afundava num caos ético, social e econômico, as instituições democráticas por aqui não respondiam às aspirações nacionais. Os guerrilheiros pegaram em armas não para restituir o poder civil ao país, mas para impor a ideologia comunista, estatizante, o absolutismo do Estado em que os modelos eram a China, a URSS e Cuba. E foram até financiados por eles. Havia uma guerra, então, deflagrada pelas ações de terror da guerrilha, com assalto a bancos, sequestros, assassinatos, atentados às forças legais e instituições, e as forças armadas foram chamadas ao confronto. Morreram muitos brasileiros, e outros tantos sofreram nestas linhas de frente, ou foram imolados em fogo colateral. A verdade não tem apenas um lado, só a história.
Não desejo a volta dos militares, desejo a Democracia, assim, com D maiúsculo, e não acredito que ela se realiza ou tenha boa perspectiva no país com os projetos dos partidos e grupos que dominam o cenário político nacional, o fundão partidário abonou com bilhões, de recursos públicos,  o caciquismo e instrumentalizou os atuais donos do poder. Têm tantas faces estes desvios da política por aqui que não é possível relacionar em um texto curto. 
Mas fico com a minha vida, que certamente tem pressa — ex  vi  da minha idade e as gerações de meus filhos e netas que avançam — e com minha experiência que não se engana com discursos, e com a possibilidade de um choque de realidade, de uma resposta que pode até ser um erro, porque se não existe um candidato à perfeição do que desejo, que seja então um que confronte o poder, e rompa a rede de influência que domina o aparelho democrático distante da vontade do cidadão. 
Os militares deixaram uma logística em energia, transporte, tecnologia e educação que faz inveja a todos os governos civis que tivemos, e não conheço nenhum dos generais ou comandantes da intervenção que tenha na sua biografia a acusação de ter morrido rico, ou tenha beneficiado a seus familiares com a corrupção. Eu vivi, não me contaram.
Talvez isto explique o desprestígio que a Democracia tenha junto ao nosso cidadão e leve o eleitor, como eu, a escolher um nome avulso, fora dos círculos mais notórios e sem os vícios conhecidos do compadrio político, mas com real possibilidade e que esteja disposto a romper com um sistema ilegítimo que apenas se alimenta do sufrágio democrático para locupletar os próprios interesses. O cidadão busca a utilidade do seu voto, que tem sido indevidamente utilizado pela maioria dos mandatários, que imolam a Democracia e a República.

VIVA A SELEÇÃO DO BRASIL


O DIA
Me orgulho do Brasil, me orgulho do brasileiro.
O país que marca gols seguidos de quebra de recordes na produção agropecuária, todo ano. Com craques que enfrentando a falta de logística no transporte e armazenamento continuam investindo no campo, e alimentando o mundo, como ocorre aqui no meu Mato Grosso do Sul. As safras batem registros que se superam, com aumento absoluto da produção e da produtividade. Todo o avanço neste setor conta com o empreendedorismo da iniciativa privada. 
Me envaidece o Brasil, com gênios que estudando nas nossas precárias escolas públicas conseguem se destacar em todas as áreas, mesmo vindo de universidades sucateadas, sem professores em número suficiente, e com insignificantes verbas de pesquisa e extensão. Temos referências profissionais nas áreas médicas, exatas e tecnológicas, que forjados com mínimas estruturas educacionais, sem qualquer fomento tecnológico, em uma educação pública negligenciada pelos políticos e governantes, e ainda assim são reconhecidos em todo o mundo, e disputados. 
As nossas riquezas naturais, ah !, estas belezas nos fazem sentir eleitos pelas mãos do criador mas elas também contam com a grande vocação da maior parte do nosso povo para o trabalho, e com a nossa serena convicção da necessidade de preservação e sustentabilidade. 
O bom brasileiro, este craque cheio de esperança, adora trabalhar. Nas grandes cidades enfrenta a falta de transporte, se pendura nos trens, nas precárias lotações, enfrenta intermináveis jornadas para chegar ao seu posto de trabalho. E muitos cumprem esta rotina em dois turnos na busca do acesso à escola, quase sempre paga. 
Me orgulho de abnegados e honestos funcionários públicos que desempenham seus ofícios com retribuição laboral muitas vezes injusta, por insuficiente, mas perseveram nos seus ideais e missão, emprestando o seu talento, suor e coragem para o bem comum. Esta cepa de agentes é reconhecida hoje especialmente na Segurança e na Justiça, que por obra de policiais, promotores, procuradores e juízes vêm fazendo uma inédita faxina nos poderes. Sérgio Moro é o camisa 10 desta seleção, que têm enfrentado a endêmica corrupção que parasita o poder político desde Cabral (aquele, o Português), e colhendo resultados reconhecidos no mundo todo. 
Vencer a corrupção, esta é a Copa mais importante, o troféu mais valioso que o país pode conquistar, e concentra toda a minha torcida. Quem sabe descubramos que o futebol tem alguma importância mas apenas entre as coisas menos importantes e passemos a pendurar as bandeiras nas nossas janelas, nos carros, nas ruas e sacadas durante os quatro anos que antecedem o famoso torneio da bola, e que vencendo ou perdendo o campeonato de futebol possamos comemorar um país democrático com valores republicanos mais sólidos.  
Um país onde os governantes administrem com vocação para atender o bem comum, e os serviços públicos devolvam os impostos em serviços de qualidade, em saúde, em educação e segurança e, especialmente em respeito à dignidade de cada cidadão. E os políticos busquem e detenham o poder para servir a República, e somente homens e mulheres com estofo moral tenham acesso às riquezas de todos e à autoridade e posto para administrar os sonhos da Nação. 
Assim, quem sabe, veremos um dia professores, médicos, produtores rurais, policiais, promotores, bombeiros, engenheiros, operários, agentes da Lei e das carreiras de Estado etc. e toda esta seleção de gente brasileira que aposta no nosso bem estar efetivo, recebendo uma retribuição que, se não for igual à dos nossos festejados chutadores de bola, seja digna e bem atraente no limite de valorizar aquelas carreiras nos corações e mentes dos pequenos garotos brasileiros que, precoces e massivamente, acorrem para os campos de várzea no sonho da redenção da miséria,  e produzem os talentos em que mais nos destacam na mídia mundial.

O CONSUMIDOR, GRANDE PATRONO DO CRIME

O momento é trágico, vivemos uma guerra civil em termos de segurança, e no Rio uma metrópole sitiada pelo crime há muito tempo. E algumas vozes na mídia conclamam mais controle das fronteiras, e sempre pautam programas com reportagens especiais mostrando esta nossa vulnerabilidade.
Fato, ela existe realmente, com o nosso testemunho direto, vez que cumprimos um trabalho de segurança naquela região há muitos anos, onde vivi a experiência pessoal de fazer corpo a corpo com esta criminalidade transnacional, num fluxo de milícias de assassinos cruéis e frios, que contam com um financiamento milionário nesta indústria criminal. A extensão do nosso território e a faixa fronteiriça com a nossa vizinhança nos expõe a países que não primam pelo controle destas divisas, sequer apresentam razoável eficiência no combate ao crime dentro de seus limites, com a agravante de que dois deles estão entre os maiores produtores das duas drogas mais populares no planeta, a maconha e a cocaína.
O trânsito praticamente livre nestas áreas, é um corredor permanente do tráfico destas drogas, do contrabando e tendo como contrafluxo a receptação de riquezas roubadas em nosso país, muitas vezes em pagamento desta maldita importação. Sim, coloquei no genérico, riquezas, pois não são só nossos carros de luxo roubados que pagam a droga nas fronteiras. Caminhões, máquinas agrícolas, joias, ouro, dólares, semoventes (gado), e todo fruto de crime, as quadrilhas locais levam para este escambo bandido maldito, aliás, muito dinheiro da corrupção acaba usando este caminho também.
A nossa fronteira seca passa dos 15 mil km, o dobro da marítima, que também é extensa, o tráfico que abastece o nosso país usa a via aérea, terrestre e pessoal (com varejo de formiga, no caso das mulas que transitam diariamente com pequenos volumes colados ao corpo e/ou com bagagens embarcadas no transporte coletivo interestadual) e motorizada em grandes cargas, e até fluvial e marítima. Evidente que este controle é muito difícil, mesmo se deslocássemos toda a força policial dos Estados fronteiriços com tais países, com o considerável apoio da Polícia Federal e mesmo do Exército.
Porque a droga é o ouro que financia o crime como nenhum outro valor, e a fonte primária dos recursos desta rede de criminalidade, e é subsidiada pelo consumo rico, abastado, endinheirado e que despende fortunas para ter o prazer com a cocaína, a maconha e derivados. O dinheiro que entra é líquido, em espécie, ninguém emite cheque nesta compra, e ele é farto, diuturno e inesgotável. A moeda que sobe diariamente os morros cariocas, infelizmente de forma ilícita e exclusiva para as mãos do tráfico, talvez seja maior que a que entra pela caixa do tesouro do próprio município, na forma de impostos, e sobrevive a todas as crises e sai exatamente dos bolsos mais afortunados que frequentam as praias mais famosas do país — não necessariamente os locais, mas que, pelo menos, transitam ou fazem turismo por ali.
Os traficantes cariocas não são atacadistas, a droga que ali chega abastece a grande cidade e entorno, mesmo porque não teria sentido, sequer racionalidade logística, ela chegar e sair dali para uma venda distante, que demandaria riscos e custos, numa clara contramão dos negócios do crime. A fortuna deste comércio é varejista, direta ao consumo e exibe uma constância e liquidez como em nenhuma outra atividade mercantil.
Então, fica evidente que o consumidor é o grande financiador do crime ali, ele paga para que se comprem fuzis automáticos, ARs 15, granadas, coletes sofisticados, metralhadoras ponto 30, munição farta (que muitas vezes nem precisam ser adquirida na fronteira, como se verifica no episódio da morte da vereadora), e é patrono de toda a corrupção, que fomenta o aparecimento de milícias criminosas, que corrói e apodrece uma banda das instituições públicas, e não somente as repressoras, e banca também para que se mantenha um poder paralelo e estruturado do crime, que garante a segurança do seu fornecedor, seu estabelecimento e sua proximidade, e paga para que se mate quem se coloca no caminho do seu consumo — o consumidor não quer perder seu fornecimento cômodo jamais.
Ora, ou vamos colocar na pauta das discussões o crime complexo que criou raízes culturais ali, e vamos responsabilizar o seu patrocínio como deve ser, ou vamos continuar esta hipocrisia de enxergar na legalização das drogas uma saída eficiente e legítima. Isto equivale a conceder um prêmio ao consumidor, este irresponsável, ou um alvará para que se legalize a mais pura tara hedonista e se absolva quem despreza os limites da vida em sociedade. E com a consequência evidente de que se irá contornar o crime do fornecedor, descriminalizar suas ações, absolver toda sua história criminosa e desumana neste comércio vil, vez que com o esvaziamento dos seus ganhos, mas não da sua disposição criminosa e do lucro fácil, fatalmente fará ele migrar para outra forma de mercado com a violência contra a Lei, pois é esta a sua expertise e vocação — os barões do tráfico são desta cepa de indivíduos que sempre acompanharam a história da humanidade (e com registros bíblicos), e que sonham com o ócio de uma vida abastada, colhendo onde nunca plantaram.
Nos morros cariocas não existem apenas eles, aliás, são a minoria que expropriam a paz, a dignidade e a oportunidade da maioria honesta e operosa, que mesmo reféns e escudos deste império do crime, insistem na vida ordeira, laboriosa e construtiva. E são a multidão, testemunha viva de que a carência social não induz e justifica o caminho da violência, do crime e da desumanidade.

CECÍLIA

Cantastes ao meu coração, não foi choro,

Era a primeira tocata da tua presença,

Com nívea luz em eufonia com tua pequena imagem.

Iniciastes assim tua vida dentro da nossa, desde o 19 de dezembro.

Linda, frágil, em terna silhueta de querubina,

Incendendo o referto amor dos que te

Aguardavam, com todos os sonhos vexados ante sua bela viva 

imagem.


PANTANEIRO PAULISTA

O sol entrou abrindo os galhos com os cotovelos, escorreu suas luzes pelo tronco, galhos, manchou todas as folhas com seu brilho e abriu o dia;
O pantanal acordou com a água batendo ritmada nos barrancos, em pequenas ondas musicais, num chá-chá-chá narcótico;
Bebi desta manhã toda, andei-voei ao horizonte alado na brisa do mar doce, e fui-me na planície tropicando nos matos, nos arranhagatos, nos caminhos de pacas, pisando em caimans e sob o vento das asas das garças e de todo o ninhal despertado ;
Era um-aqui-um-ali piu de passarinho me achando e me chamando e logo estava enfiado no meio do chaco, sob telhas de folhas, macacos e cipós;
Fiz minha aventura diária que nunca é igual, abrindo os peitos das águas, dos corixos, das frutas caídas e dos pelos de bichos;
Cheiro bom de jenipapo podre, de bugio molhado, de água parada que afoga todo o pensamento e devolve vida cru;
Bom tabaco este queimar de cheiros confusos das mil ervas de mato;
Ópio da terra, do cio de plantas, dos peixes e de todo mato-em-tudo;
Gosto desta sem Lei, desta anarquia de cores e fumos, gostos e sopros, que orvalham no meu suor, na minha caminhada sem rumo;
Eu que vim do cimento e das pedras da pequena cidade, terna Guararapes, e que desfrutava de um rio quase morto, do Frutal malcheiroso apodrecido das mortes de vacas, matadouro, conhecia pouco das verdadeiras selvas;
Comprei minha bota, minha passagem na Noroeste do Brasil, NOB, dormi naqueles trilhos lentos que cruzaram estes novos campos,  ouvindo seus ferros musicais, e pus-me agarrado ao machete da aventura — atravessei a ponte do Rio Paraná;
Entrei por Três Lagoas, passei por Ribas, atravessei Campo Grande e desembarquei em Aquidauana, descobri Bonito do Campo dos Índios, Nhecolândia , onde fui batizado no Tereré e mastiguei minhas primeiras guaviras;
E eis me aqui, eis me ali, no cimo daquele morro seco da vazante, no prado aguado das taboas, nas botas pesadas do rio pescado.
Horizonte de baías, de água espalhada nos campos, das raízes ensopadas das bocaiuvas, dos ipês floridos, dos ninhos dos jaburus, das corridas musicais das seriemas;
Nunca vou te deixar,
Nunca te vou despertar nos meus sonhos.



* Meu especial agradecimento a Manoel de Barros, saudoso passarinho mais cantador destes lindos brejos, com quem aprendi esta língua das águas, de folhas caídas, de bico de maritaca, de rastro de barriga de cobra-sapo...assim me meti no verbo deste pântano de sonhos.

CONFINADA ETERNAMENTE NA SAUDADE

Uma menina foi morta esta semana em Campo Grande, uma menina que escolheu abraçar as artes para sobreviver, professora de Música, tinha mestrado na Universidade Federal.
Foi abatida cruelmente, covardemente, o corpo estava parcialmente nu e queimado, abandonado na beira de uma estrada, e foi encontrado enquanto ainda era consumido pelas chamas.
Os indícios preliminares levantados pela Polícia é de que foi morta com pancadas na cabeça, mas o laudo pericial vai detalhar e apontar, inclusive, a possibilidade de violência sexual concorrente.
Já existem suspeitos detidos. Sim, teriam sido vários os autores.
O motivo, um roubo, queriam a sua riqueza que conquistara na luta diária de sobrevivência.
Ela vivia em um pensionato, um domicílio coletivo de baixo custo, e o inventário inicial da polícia aponta que tinha uma bicicleta, um violão, um pequeno cão e o seu veículo, ano 1992, pequeno e modesto, comprado a prestação e que foi roubado na ocasião de sua morte.
Ela teria a idade da minha caçula, talvez pouco menos, mas vi o seu sorriso nas fotos, parecia muito com o da minha filha.
O mundo perdeu uma Musicista, uma artista, mas ganhou um (ns) assassino (s), que vai (vão) fazer uma estadia na prisão.
Sim, será uma estadia provisória, a nossa legislação penal é muito frouxa, e a nossa Lei de Execuções Penais transformou a prisão em abrigo temporário, e com a progressão de penas fazendo da punição um escárnio, e incentivando o crime. Quase ninguém fica recluso, na verdade.
E parte das nossas prisões tem donos, e não é o Estado ou a Administração Pública, é o crime organizado que domina os códigos internos, que impõem as regras e vantagens à população carcerária, que só reconhece esta autoridade. Quanto mais criminoso e perigoso, maior é o prestígio do chefe dentro do sistema. Geralmente os de pena mais longas, fregueses contumazes, reconhecidos e temidos por todos.
Ora, você nunca recebeu um telefonema deles? Te extorquindo pelo falso sequestro de um familiar? Ou tentando outro golpe para tomar o teu suado dinheiro, geralmente com um coautor livre que executa o crime?
Não os maltrate ao telefone, eles podem se zangar, e na saidinha dos dias dos pais, ou de Natal, podem tentar uma vingança, ou mandarão que façam por eles.
Então, o (os) assassino (s) desta jovem e linda menina vai (ão) engrossar estas fileiras, esta escola, e não sairá (rão) melhor (es), mas certamente em breve.
A Educação é sempre o mantra nos discursos de quem não reconhece no endurecimento da legislação penal o eficiente combate à violência.
Mas eu digo, com minha modesta, mas rica experiência na segurança pública, a Educação previne o criminoso, mas não o crime.
Na verdade, boa (de significativa) parte dos que votam as leis, trabalham contra o seu rigor, a sua força, eficiência e dura sanção, e sabemos por quê.

Eu queria ver o sorriso e a música desta menina livres pelo mundo, desfilando pela minha cidade, estamos precisando muito disto, mas será confinada a apenas uma lembrança, uma saudade. 
Meus sinceros sentimentos à sua família e amigos. 

CRISE ? NÃO, É O PARTO DE UMA VERDADEIRA REPÚBLICA

Emerge mais uma delação, com novas denúncias e revelações, e instruídas com fotos e gravações em áudio, e que colocam o chefe máximo do governo no centro das acusações. Além do Senador e presidente de partido, e um dos seus principais apoiadores, e virtual candidato, inclusive, à sua sucessão.
E os analistas se debruçam sobre os indicadores econômicos, sobre o revés nas reformas, sobre a instabilidade política e volatilidade dos mercados. 
Mas o que está ocorrendo é a necessária reforma do Estado, ou melhor, a reconstrução da República com os legítimos alicerces dos valores éticos e democráticos. 
 A Lei reivindica o seu império, e revigora as instituições de Estado com o conluio da Nação já cansada de tanto ultraje. 
Crise? Não, é o advento de um novo país, comprometido com os reais valores republicanos, com o respeito intransigente à Lei. 
" — Ora, direis, ver esperança ! — Então perdestes o senso ! Mas eu vos direi, no entanto, que os que sonham comemoram" (plagiando o poeta Olavo Bilac). 
Nem esquerda, nem direita, este governo acabou, e boa parte da dita oposição também, aliás especialmente os que tiveram origem na mesma chapa eleitoral, e que perdendo o centro do poder, pelo impeachment, vinham denunciando-o por “golpista”. 
Os argumentos de que a Lava Jato tinha um viés político-ideológico, ou que fosse seletiva, não resistem mais. 
E que a punição seja implacável, indiscriminada e guardando plena equidade, como convém à absoluta Justiça. 
Mas no final caberá ao povo, ao cidadão eleitor, a ação mais eficaz para a efetiva assepsia dos quadros políticos, não renovando os mandatos de quem os exerceu ilegitimamente, e expurgando da vida pública os indignos. À Nação compete impor novos costumes políticos e democráticos, mais consonantes com a necessária ética republicana.

A MEIA-GRAVIDEZ DE ALGUNS PRETENSOS CASTOS DA POLÍTICA

A corrupção nunca parou, nem depois do comemorado julgamento do Mensalão.
Aliás, muitos dos protagonistas do escândalo continuaram operando a azeitada máquina de desvio de recursos, caixa dois, propinas ou qualquer definição que se possa dar aos diversos ilícitos praticados contra o erário público.
A delação da maior empreiteira do país mostra que a covardia, a desonestidade contra a Nação era sistêmica, de grande parte da casta política nacional, disseminada entre quase todos os partidos, em quase todas as esferas de administração pública e já tinha um histórico cultural e até tradição. Pois vinham de pai para filho, dentro do mesmo ramo familiar, nos grupos políticos fechados e fiéis nos conchavos das conquistas eleitorais.
Mas pior que o roubo, os enormes desvios das riquezas nacionais, é o iminente "acordão" que estaria sendo gestado nas vísceras da nossa putrefata política, onde um bando dos denunciados, ou delatados, já se mobilizaria para buscar preservar o próprio poder, o mandato, e garantirem a própria impunidade. Sem o constrangimento dos limites partidários e ideológicos (que na verdade nunca existiram em face da comum sede de vantagens).
Já se ensaia o discurso para se vender a “meia desonestidade”, para absolver a “culpa menor”, e justificar a “pequena imoralidade”. — Ora, caixa dois sim, mas sem corrupção! (sic) . — Apoio de campanha eleitoral paralelo claro, mas sem comprometimento imoral! (sic). — Verba eleitoral não oficial houve, mas jamais por vantagem pessoal! (sic).
A meia-gravidez de parte dos nossos pretensos castos políticos é tão infame quanto o discurso dos ladrões comuns surpreendidos com a mão no patrimônio alheio. Eu ouvia muito disso no meu caminho entre as celas do presídio regional, onde exercia a direção na condição de delegado regional, enquanto caminhava nas minhas correições periódicas. Com suas histórias todos apresentavam uma grande atenuante, uma justificante, e quase absolvente razão, e unanimemente denunciavam a injustiça da Justiça — a prisão imerecida. Aliás, a cadeia é apelidada pelo próprio público interno como Paraíso dos Inocentes, sardonicamente. O homicida "fortuito" com uma Magnum 357, com munição de carga reforçada e ponta oca/fendida, que jurava que matara em legítima defesa. O ladrão que apenas passava pelo local e "acompanhava o amigo” comparsa, efetivo autor do roubo. Havia o que roubava veículos de luxo, os atravessavam na fronteira internacional para venda,  "para alimentar os filhos inocentes e famintos" ou "tratar um doente terminal da família", altruistamente.  O traficante que não sabia que “aquilo” sob sua guarda era droga, e que transportava sob um miserável frete fixo, escondido em fundo falso ou camuflada em meio à carga lícita. Também, o articulado receptador do bens roubados que jamais desconfiava da premiada, incomum e generosa economia que fazia nas suas aquisições variadas, de jóias a veículos. E memorável foi o matador profissional, com longa ficha policial e vários mandados de prisão, diante de mim no seu interrogatório e reagindo à minha pergunta acerca do valor da paga do seu último assassinato, garantindo que jamais fora o  real autor das mortes de suas vítimas, já que pessoalmente não as desejara,  e que aos chumbos dos projéteis couberam as mortes na sua conta, onde fora mero executor ao iniciar o processo e deflagrar o gatilho para realização do serviço, por encomenda e desejo do mandante, este sim desafeto assumido dos mortos. Assim mesmo, com ares de surpresa indignada.
Francamente, que tenha sobrado falta de vergonha é natural, é da vocação de qualquer sujeito disposto ao desrespeito ético e legal, mas desta classe esperava-se mais inteligência e criatividade, pelo menos no discurso, nesta arte que sempre se desincumbiram com louvor em homenagem aos grandes sofistas da história.   

MOROFOBIA, UM SENTIMENTO COMUM DOS CORRUPTOS

Um sentimento lisonjeiro é despertado no magistrado que vê a escória infratora, os delinquentes tentarem fugir do seu veredicto. É quase um termômetro da eficácia de sua Jurisdição, um reconhecimento cabal e imparcial da sua correção na prática de Justiça. 
O Juiz Moro descansa sempre sob a serenidade e conforto absoluto da própria consciência,  ao assistir tantas manobras e chicanas jurídicas deste bando,  figuras notórias pela impunidade, na fuga desesperada de sua pena.
O Brasil que trabalha, honesto, que produz e sonha com uma República de todos, e aqui semeia sua vida e filhos, está contagiado pela MOROGRATIDÃO.